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segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

A Família Dinossauros - Nem parece que foi há tanto tempo

 



O fenômeno

 

Tem séries que não acabam nunca enquanto existem aquelas que, por mais que sejam boas, contam com poucos episódios e se perdem no tempo. Às vezes é até melhor assim, as boas ideias da premissa original acabam sendo corrompidas em nome da audiência, o que, por sorte, não é o caso de A família Dinossauro. Exibida por aqui de 92 A 94, tempo quase simultâneo à sua produção, exibição e encerramento em seu país de origem, a Família Dinossauro, juntamente com Os Simpsons, vendia a ideia de uma produção destinada a todas as idades, explorando o cotidiano de uma família como qualquer outra, cada membro com suas peculiaridades, de fácil identificação ao público. Mas enquanto Os Simpsons estão aí até hoje em sua produção mais simples e de popularidade cada vez mais global, a família de Dino e cia só não se perdeu no tempo por ser uma série um tanto diferente, pioneira em sua época, levando o nome de Jim Henson e sua produtora na concepção de materiais utilizados em cena, o recurso que combinava atores em vestimentas especiais, fantoches e tecnologia animatrônica, animados por computador. Por aí já dá para imaginar a trabalheira que era dar vida a cada personagem em cada episódio, e o quanto isso era caro. Mas fazendo justiça, o seriado era muito mais que isso, a história contava bastante, com personagens carismáticos, muito humor negro e crítica social, e inovação ao retratar o cotidiano de uma família pré histórica na qual os ´´lagartos terríveis`` eram considerados seres pensantes, fazendo uma analogia aos dias atuais da época, e que mesmo hoje em dia continuam iguais, pois o seriado envelheceu bem, nem parece ter sido produzido há tanto tempo. O curioso é que, se aqui temos ´´Família`` já no titulo, no original a série não dá tantas pistas do que se trata a premissa, batizada apenas de Dinosaurs. Mesmo os personagens centrais, nada de Silva Sauro, nada de Dino, nada que lembre sua natureza reptiliana pré-histórica. O nome do patriarca é Earl, e o nome da família é Sinclair, talvez tenha sentido dentro de algum contexto norte-americano, ou não. De qualquer maneira, sabemos que as versões brasileiras para títulos e traduções costumam serem as melhores.


Era interessante ver que, ao alcançar grande popularidade, a série passava a não ser mais um programa semanal, indo de vez para as manhãs diárias da Globo misturando-se aos desenhos animados da programação infantil, isso perto do almoço, momento em que os adultos costumavam estar também presentes na preparação da ida das crianças para a escola, e acabavam tendo sua atenção despertada por essa família pré-histórica. Em terras brasileiras, sem dúvida o programa inicialmente era considerado um produto infantil, lembro que na época o país foi tomado por uma tal de ´´Babymania`` nome dado à modinha que o dinossaurinho rosa, caçula da família, atingia as crianças com seus brinquedos, roupas, acessórios de cama e colecionáveis. Um personagem infantil tão carismático e de fácil apego emocional, paródias de programas de televisão da época em um tom mais cômico, dinossauros se comportando como gente e um visual que lembrava bonecos de filmes dos Muppets e mesmo os cães da TV Colosso, realmente levavam a série para o reconhecimento de mais um conteúdo para os baixinhos, mas quem assistiu a série depois de ter crescido ou quem já era adulto na época, sabe que de infantil não tinha quase nada. Os temas centrais de cada episódio são muito bem trabalhados, envolve questões e termos super atuais já naquela época, como direitismo e esquerdismo, manipulação de massa, consumismo, o controle que a mídia exerce sobre nós, feminismo, fundamentos do trabalho, drogas entre os adolescentes, contestação política, ecologia, assédio moral no trabalho, xenofobismo, liberdade de expressão, alimentação carnívora e antinatural se contrapondo à alimentação saudável, novas tecnologias, capitalismo desmedido, noções de história, geologia e até mesmo vida sexual. O que devemos lembrar que todas essas questões eram veladas, não era nada, digamos assim, escancarado, nada de lição de moral no final, apenas os mais atentos entendiam e começavam a se questionar sobre cada acontecimento do episódio, ou seja, os adultos. Se visto nos dias de hoje, a única diferença é que no lugar da televisão, tecnologia tão consumida pela família, teríamos também a presença de internet, celulares e tablets, inclusive nas mãos do Baby Sauro, já que a alienação era amplamente abordada em cada história. Tanta criatividade nesse inteligente seriado acabava o tornando um item popular igualmente entre os adultos, melhor que isso, os adultos da série, não sendo meros coadjuvantes, passavam a fazer parte do imaginário das crianças, não mais apenas o Baby com seu irritante bordão exaustivamente reproduzido nas escolas e em brincadeiras infantis ´´Não é a mamãe!``. Qual criança da época não queria ter um pai igual o Dino da Silva Sauro, por mais que, como outros pais de séries da época, fosse recheado de maus exemplos? Apesar de irresponsável Dino era um pai de família bem melhor que muitos por aí, marido amoroso, paciente com os filhos e um grande exemplo de proletário, disposto a aceitar tudo para manter uma vida razoavelmente confortável em sua casa. Era fácil identificar membros da própria família com os personagens, tanto que qualquer item que levasse a imagem de qualquer um deles passou a ser fruto de desejo e ostentação. Foram lançados gibis, material escolar, LP com canções em português pela Xuxa Discos, biscoito Passatempo recheado, álbum de figurinhas, chicletes, artigos para festas, bonecos e diversos outros produtos, originais e piratas. Na mesma época, aproveitando o embalo da moda já lançada por essa família, veio outros produtos que exploravam a figura histórica de dinossauros, como o filme Jurassic Park e o seriado Power Rangers, cujos heróis representavam poderes de animais pré-históricos, que também renderam vários produtos, sem contar o extinto chocolate Surpresa, que oferecia de brinde figurinhas com imagens de dinossauros e uma resumida das características de cada espécie em seu verso. Crianças passavam a se interessar pelos répteis gigantes, e os adultos redescobriam uma curiosidade e passavam a ter noções básicas de paleontologia. Porém, a família Silva Sauro, dês de sempre fictícia, não apresentava com precisão histórica sua natureza. Sabemos que Dino é um megalossauro, e a Fran, matriarca da família, é uma alossauro, mas os filhos, e a própria mãe de Fran, parecem ser de espécies diferente, em nada combinando entre si. Roy, melhor amigo de Dino, é um tiranossauro, e senhor Richfield, chefe inescrupuloso de Dino, é um tríceratops, só que essa seria uma espécie vegetariana (se bem que, mais recentemente, soubemos que essa espécie sequer existiu, mas...) e a despeito de sua natureza, Richfield é um terrível predador. Mesmo assim, sabendo mesclar fantasia, humor e alguns pontos realistas, principalmente ao remeter à realidade humana social, o seriado conseguiu lembrar fatos do período em que se situava, a origem dos continentes, o princípio de sua separação, a era glacial, e a inevitável extinção das espécies nas quais pertenciam, retratada com justiça no episódio final, aquele que chocou todo mundo e foi banido em alguns países, mas que você pode encontrar na internet.

 



Pontos do seriado.

 

Tudo bem, a produção do seriado era dispendiosa por contar com recursos tão modernos para a época, isso sem contar com o esforço e o trabalho da equipe técnica para casar tudo isso, o que pode ter contribuído para a série ter poucos episódios se comparada a outras produções semelhantes. A série tentava ser econômica a seu modo, personagens como Zilda e Richfield permaneciam a maior parte do tempo sentados, o que poupava esforços técnicos, eram usados planos fechados para não ser preciso criar cenários demasiado grandes e de muita profundidade, bonecos eram reaproveitados para vários personagens e omitia-se alguns detalhes, como o carro da família, que apareceu em poucos episódios e em soluções práticas, como mostrando apenas o interior do veículo. Quem assistiu a série deve ter visto alguns personagens reproduzidos com a mesma aparência, isso acontecia porque para a criação de figurantes a produção mudava apenas as roupas de velhos conhecidos, mas que não eram da família original, o que contava com nossa aceitação. Inconscientemente imaginávamos apenas que eram indivíduos da mesma espécie. Inclusive era possível mudar o sexo pela troca de vestuário e pela voz da dublagem. Era assim com os colegas de trabalho de Dino, que ´´viraram``, em outros episódios, médicos, juízes, fotógrafos, ´´Mago do Trabalho``, namorados dos filhos adolescentes, entregadores, analistas, professores, populares e demais figurantes, inclusive o próprio Baby em sua versão adulta. Falando nisso, é quase deixado claro, em um determinado episódio, que Baby não é filho de Fran e Dino, tudo não passou de um acaso por uma troca de ovos, fato esse que Salomão, o Grande, conseguiu fazer não importar. Apenas o elenco principal não contava para outras participações como outros personagens, caso de Dino, Zilda, Fran, Bobby, Charlene, Baby, Sr Richfield, Mônica Invertebrada (que engenhosamente contava apenas com sua cabeça e seu pescoço comprido, em poucas vezes aparecendo seu corpo em uma panorâmica longínqua da casa da família), Roy e Carlão, melhor amigo de Bobby. Só em casos excepcionais podíamos vê-los como outros personagens, como quando aparece a irmã idêntica de Dino e quando a família recebe a visita do possível autêntico filho de Dino e Fran, no caso um Baby verde, menos travesso do que o que estávamos acostumados.




Como tudo que é bom dura pouco, em 94 os produtores do seriado decidiram que já era hora de terminá-lo, o que talvez fosse o tempo certo, antes que começasse a perder a graça. Para isso decidiram um final um tanto comovente, mas interessante em termos de história, que seria a extinção dos dinossauros já na geração dessa família querida que aprendemos a amar. Mesmo amenizado com o humor e a alegoria tão característicos dessa série, o épico episódio final traz nas entrelinhas a mensagem de que o capitalismo, o consumo desmedido e o desperdício de nossos recursos naturais podem simplesmente nos levar ao fim de tudo isso, o que acaba fazendo não valer à pena tais esforços, e que o melhor a fazer é usufruirmos tudo de forma natural, aceitando o preço sem querer dar um passo maior que as pernas. É incrível pensar que um seriado retratado em tal época e considerado apenas um sitcom ou um simples programa infantil, pudesse trazer mensagens tão profundas para os dias recentes, e que, aliás, faz muito mais sentido nos dias ainda mais atuais, onde tudo tem andado em um ritmo cada vez mais desordenado, nos fazendo ter uma perspectiva não muito boa do futuro. Será que, tal como os répteis gigantes pré-históricos, nós humanos poderíamos ter um destino semelhante? Bem, seriados como esse são raros hoje em dia, e talvez por isso não mais exista. Estava bem à frente de seu tempo, o que se torna irônico em vários sentidos. Hoje ele seria ajustado para se tornar uma comédia mais leve e sem mensagens políticas ou ecológicas. Hoje o ´´canibalismo`` e o humor negro seria tratado como algo indigesto para a TV aberta, onde um certo bebê Yoda não conseguiu ser tratado com tanta naturalidade ao passar aos olhos pseudo conservacionistas, gerando militância em meios midiáticos. Você pode não lembrar ou sequer ter percebido, mas sim, A Família Dinossauro previu tudo isso.




terça-feira, 29 de maio de 2018

X- Men Animação Clássica




Insisto em acreditar que os desenhos dos anos 80 e 90 são melhores que os de hoje. Não importa os acertos, as tentativas, as opiniões divididas entre uma adaptação clássica e uma criação original, o que defendo é que, independente de ser o público alvo, as animações antigas superam as recentes. Lembro da metade dos anos 90, onde a preferência dos garotos da época era disputada entre Os Cavaleiros do Zodíaco, X-men, e um pouquinho depois, Power Rangers (Mighty Morphin). Nesse período passava entre eles, um tanto despercebido, o desenho Os Poderosos, na TV Colosso, que eu gostava bastante e em minha humilde opinião não ficava devendo em nada para esses já citados, mas eu preferia ficar calado para não sofrer ´´hate``. Mas acontece que, se antes eu conhecia X-Men dos quadrinhos, foi com a animação que começou minha admiração pelos mutantes até os dias de hoje. Se não me engano começou a passar no Brasil no comecinho de 1994, e realmente para época era um dos melhores desenhos a passar na televisão, era o último a ser exibido na programação infantil da Globo, na hora do almoço, justamente o momento em que se registrava maiores indicies de audiência, a hora em que as crianças se preparavam para ir à escola (no caso, as que estudavam de tarde, público para o qual a programação era direcionada). Os personagens agora se encontravam em novos uniformes, todos reformulados, diferente da maneira como apareciam nos quadrinhos, com destaque especial a Ciclope, Wolverine, Vampira, Gambit, Fera, Jean Grey, Tempestade, e um protagonismo optativo dado à Jubileu, uma pré adolescente, provavelmente para trazer mais identificação ao público infanto juvenil que viria a acompanhar os episódios, inserindo-os na descoberta desse novo universo de pessoas diferentes que a aguardavam, já que muito provavelmente nem todo leitor dos quadrinhos iria ser conquistado por essa versão animada dos X-Men, que precisaria ter uma linguagem mais infantil e mais universal. A animação seria apresentada à uma nova audiência, aquela que nem tinha o hábito da leitura, ainda mais se lembrarmos que os tempos eram diferentes e as crianças não conheciam nada de redes sociais, sites, blogs e comunicação à distância. Falando nisso, foi assistindo esse desenho que aprendi a pronunciar corretamente o nome Ciclope, que, acredito eu, foi a melhor versão desse personagem. Scott Summers foi o protagonista que as outras mídias precisariam ter, até hoje não o vi em uma adaptação decente nos cinemas, por mais que tivessem tentado nessa última vez. Forte, viril, bom líder, galante e em nada devendo a Logan, que também foi aqui bem retratado, talvez começando desde já a conquistar seu lugar na preferência de muita gente quando se pergunta qual seu herói/ X-Men favorito. Insisto a pensar que só existe os filmes de heróis por que as animações deram seu ponto de partida, não os quadrinhos, ao menos os primeiros a iniciar as sequencias que viriam depois. As versões televisivas foram as que apresentaram os heróis ao mundo, pois todos assistem televisão, crianças assistem televisão, e não necessariamente todo mundo tem o hábito de ler, mesmo hoje em dia, o que não deixa de ser uma pena. É possível conhecer toda a história, os personagens e a mitologia que cercam os heróis sem ter tocado em um gibi sequer, e ainda se tornar fan de um determinado personagem, debater, discutir, e reclamar caso seja escalado outro ator para interpretá-lo, escanteando o qual conhecemos sob a pele do personagem que aprendemos a amar. Mesmo assim a venda dos gibis dos mutantes aumentou bastante com o sucesso da animação, trazendo inclusive às bancas X-Men Adventure, série adaptada dos episódios da animação, e um álbum de figurinha da série de TV, que não vi fazer muito sucesso onde eu morava, tendo sido ofuscado pela coleção das figurinhas dos Cavaleiros do Zodíaco. Como podemos perceber, os impressos faziam sucesso de uma maneira que as crianças de hoje não conseguiriam imaginar. Com relação ao sucesso do desenho também se tornou fácil encontrar o jogo de Super Nintendo X-Men - Mutant Apocalypse, onde se podia jogar com Ciclope, Fera, Wolverine, Gambit e Psylocke, curiosamente a única representante do gênero feminino, que sequer fazia parte da equipe original da animação. Esse foi o primeiro dos muitos jogos, de vários consoles, que veio nesse embalo.

A animação



A animação tinha uma pegada bem anos 80, e digo de uma maneira positiva, pelos bons traços, roteiro bem trabalhado e personagens bem construídos, mas foi produzida entre 1992 a 1997, num total de 5 temporadas. A Rede Globo nem se atrasou tanto em trazer a animação para nossa terra, e o sucesso foi praticamente instantâneo. Pena que a belíssima abertura foi cortada para poupar tempo de exibição, restando apenas a ´´colisão`` entre heróis e vilões que, afinal de contas, acabou se tornando uma abertura antológica. A mansão do professor Xavier se mantém bem equipada e sofisticada, porém, sem a cara de uma ´´escola de alunos super dotados`` que precisaria ser seu disfarce. Para não duvidar do intelecto das crianças e de qualquer outra pessoa que assistisse a animação, não existia mais ninguém na mansão além dos tradicionais X-Men. Esqueça isso de aulas, alunos e professores, a Mansão X apenas abrigava mutantes heróis que se reuniam para discutir seus planos, treinarem seus poderes e habilidades, e ter um teto para viver, tudo sob a tutela de Charles Xavier. Em um determinado episódio a mansão é toda destruída e refeita por eles mesmos, voltando a funcionar em tempo recorde, com todos equipamentos que nela contêm. Outros personagens importantes esbarravam com nossos heróis em alguns episódios, como Colossus, Noturno (que por alguma razão teve seu nome alterado para Morcego), a Tropa Alfa, Anjo, Cable, Blob, Homem de Gelo, Psylocke, Moira, Pyro, Mercúrio, Morlocks, Feiticeira Escarlate, Bishop, Banshee, Ka-Zar, Mística, Sauron, Cristal, Solaris, Capitão América, Samurai de Prata, Senador Kelly, Mojo e Longshot, entre muitos outros. Alguns achei que foram bem utilizados, outros não, mas devemos saber que são muitos personagens e é difícil encontrar lugar para todos eles. Além dessas participações, um ou outro personagem do universo Marvel aparece em forma de lembrança, flash, frame ou plano detalhe, sendo de certa forma homenageados, como aconteceu com o Motoqueiro Fantasma, Justiceiro, Deadpool e Homem aranha. 




De todos os personagens que não são os clássicos protagonistas, um que chamou bastante atenção, além da Jubileu, foi o Morfo. Com o mesmo poder da Mística, era basicamente um estranho para quem conhecia os X-Men apenas dos quadrinhos, e morreu logo no segundo episódio. Ou seja, era um personagem criado só para morrer mesmo. Segundo Wolverine, era um grande amigo seu, sempre sarcástico e divertido como o mutante canadense. Apareceu alguns episódios depois, vivinho da silva e bem revoltadinho por sinal, a princípio querendo se vingar de seus ex-colegas X-Men por o terem deixado para trás e resultando em sua morte, mas perto do fim da série ocorre uma trégua e volta a se entender com eles, não retornando à equipe por achar que ali não é mais seu lugar (e também porque não cabia mais no roteiro), apesar da insistência do Professor Xavier e Wolverine. Nos quadrinhos tem um personagem bem parecido, porém, o da versão televisiva foi apenas inspirado neste, já que não há grandes semelhanças além do poder de metamorfose. 

Contudo, há um grande estranhamento entre essa versão televisiva com as demais, detalhes, histórias e origens que entram em choque. Como por exemplo, ser difícil considerar a relação maternal entre Mística e Vampira, assim como a mesma relação que a mutante azul tem com Noturno (ou morcego, em se tratando dessa animação), dessa vez uma relação sanguínea. Fora isso, arcos de histórias foram aqui muito bem representadas, como o da Fênix / Fênix Negra, a participação da equipe Shi´ar, a história em torno da cura mutante, as viagens temporais, e as lembranças, em flashback, que a equipe mutante nem sempre foi como passamos a conhecer desde o primeiro episódio, mostrando que antes era usado um uniforme padrão, os integrantes nem sempre eram os mesmos, e Fera já teve forma humana. A linha do tempo doida e bifurcada característica de uma produção dos X-Men marcava sua presença já nessa época, com os infindáveis casamentos entre Scott e Jean e falhas de continuidade e de coerência. Às vezes parecia que o roteirista esquecia do que havia acontecido antes. Tudo bem apenas se você achar que as crianças tem memória curta e não lembram do que comeram no café da manhã do dia anterior. 

Vilões

Para ser sincero nunca achei os vilões dos X-Men tão terríveis assim. Magneto, por exemplo, me parece uma flor de pessoa. Acessível à conversas, sua motivação é coerente e seus planos nem são tão terríveis assim. Apareceu em alguns poucos episódios como vilão, em muitos como aliado, e nem impressionou tanto. O mesmo se diz sobre Juggernaut (eu prefiro chamar de Fanático, mas muita gente se refere a ele pelo nome original). Foi interessante lembrar do meio irmão de Charles Xavier e explicar sua história, o fato de ele não ser mutante e mesmo assim parecer uma grande ameaça, seu caráter, em vários episódios não importando a distância entre eles. Mesmo assim, ele não é de longe tão ameaçador como deveria. Sua primeira aparição coincide com a primeira aparição de Colossus e o conflito que se segue (a bem da justiça, o desenho é cheio de ação e luta, embora para os padrões aceitáveis da época) deixa bem claro que na verdade ele é um bobalhão de miolo mole, dependente de sua couraça. Um detalhe curioso é que em um episódio bem à frente, um Zé ninguém encontra a jóia de Cyttorak que confere os poderes de Juggernaut e se torna um pit boy irresponsável, indo parar, em conflitos com o Juggernaut verdadeiro, no set de filmagem dos Power Rangers, referência que teve origem talvez por o  seriado, que também é da Saban assim como essa animação dos X-Men, estar fazendo sucesso na mesma época. 



Dentes-de-Sabre é um personagem que não pode faltar, mas teve sua origem mal trabalhada e mal desenvolvida nessa animação. Ficou sem explicação do porquê Wolverine odiá-lo tanto, não podia nem ver o cara que já ficava de TPM. Nos episódios futuros, suas sequencias com o Wolverine, seu envolvimento nas descobertas da Arma X e a união com outros personagens, foram dando um tempero adicional ao personagem. Mas sem dúvida o maior deles foi mesmo Apocalipse, merece levar a menção honrosa de melhor vilão da série. Nem mesmo Sr Sinistro se mostrou tão terrível (lembrando que os arcos de aventura dele são chatos). Já Apocalipse em todas suas formas, seus planos, seus vilões derivados, Arcanjo, os quatro cavaleiros do apocalipse, Pestilência, Guerra, Fome e Morte, enfim, já nem deixaria mais espaço para outro personagem bicão se estivessem em todos episódios.  Tão estiloso quanto ele, mas não mais amedrontador, é o Molde-Mestre, que fabricava Sentinelas numa escala absurdamente grandiosa. 




Não sou um cara preso ao passado, acredito e torço para que futuras gerações conheçam animações de qualidade de super herói como foram as do meu tempo. Ao menos que conheçam as originais, por que não, desenho bom não fica datado. Os personagens estão sempre se reciclando, nas animações, no cinema, em adaptações live-action, só vamos esperar que não descaracterizem nossos heróis em produções preguiçosas e infantis abaixo da média. Pode ser inclusive que X-Men precise de uma nova adaptação, mas nada parecido com X-Men Evolutions. Só que na direção que caminha as produções atuais quem sabe ser comparado com X-Men Evolutions não seja mais tão ruim assim.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Megaman, um dos desenhos bons do SBT dos anos 90


Parece que só até os anos 90 foram produzidas animações de qualidade, ao menos para as TVs abertas. Se bem que hoje em dia, aqui no Brasil, não passe mais animação a não ser no SBT, que inclusive nos traz excelentes lembranças de bons desenhos. Um desses é Megaman, animação do personagem clássico dos jogos da Capcom, que a princípio demorei a me acostumar, mas logo percebi que não podia ter sido feito uma adaptação melhor para as crianças da época. 
Era em 1996 que estreava esse desenho na programação infantil das manhãs do SBT, se não me engano passava no Bom Dia e Companhia, mas eu assistia mesmo era de vez em quando no Sábado Animado. Nas primeiras vezes que assisti não gostei muito, eu era fascinado pelos jogos e achava que a animação ficava devendo em muita coisa. A começar por personagens que nunca existiram, como a Roll, irmã do Megaman, outra robô criada por Dr Light. Como bom purista que eu era e ainda sou, achei que devia manter as características originais dos jogos de videogame. Não que a personagem não fosse interessante e não se encaixasse nas histórias, pelo contrário, acredito que já que vão inventar um personagem novo, que disponibilizem mais espaço para suas ações e seu crescimento. Me incomodava bastante Dr Light falando bem mais com o Megaman, o designando para missões importantes, explicando detalhadamente seus planos para frustrar as investidas malignas de Dr Willy, deixando a pobre Roll de lado, sendo que os dois eram seus filhos e muitas vezes Roll mostrou força e poder, inclusive salvando Megaman várias vezes. Cadê as feministas que não vêem isso? Curioso também é o nome dos irmãos. Megaman é Rockman no original, mas Light o chamava carinhosamente de Rock, portanto, o nome do casal de irmãos fazia referência ao ritmo musical preferido de dr Light, ´´Rock and Roll``. Pois é, faria todo sentido se o nome do robô azul não fosse mudado para Megaman até o fim da série.  Me incomodava também a maneira como Megaman ´´roubava`` o poder dos inimigos, apenas tocando neles como faz a Vampira, dos X-Men, como se fosse um super poder mesmo, sem esforço nenhum. Nem mesmo ficar com a cor dos inimigos que ele tomava o poder ele ficava. Ora, eu imaginava, e muita gente também, que o processo em que ele tomava o poder dos inimigos fosse o seguinte; ao destruir o tal Robô Master, ele pegava dos escombros (carcaça, sucata, do robô destruído) o hardware responsável pelo conferimento de seus poderes e adquiria a arma/ poder que era conferido ao robô, tornando-se um item útil para sua jornada a partir desse ponto. Mas como adaptar isso para uma animação infantil? Ao menos podia botar o Megaman retirando o tanque canhão do braço do robô inimigo (aliás, todos os Robôs Masters deveriam ter esse tanque canhão no braço sempre que fosse conveniente) e acoplando em seu próprio braço, e prontinho. Eu ficava me perguntando por que o antagonismo fixo de Cutman e Gutsman, ambos do primeiro jogo do Megaman, estavam presentes em todos os episódios sem motivo aparente. Pelo menos o visual deles era bem caprichadinho. Fora isso, a estrutura dos episódios também não me agradou de início, eu queria era ver um Robô Master diferente por dia, que fosse uma grande ameaça, e ao ser destruído não aparecesse mais, tal como uma emulação das sensações que sentíamos ao jogar o game. Hoje, mais maduro, entendo perfeitamente que uma mídia é bem diferente da outra, e que, afinal, era uma animação infantil, e não necessariamente feita para quem conhecia os jogos. Os Robôs Masters aqui, mesmo sendo destruídos, eram recuperados em questão de segundos, e eram atrapalhados, palhações, por mais que fossem inconvenientes e conseguissem dar um pouquinho de trabalho para nossos heróis. Eu resmungava demais era pela falta de inimiguinhos que Megaman encontrava pelos estágios, como Mettall, por exemplo, que apareceu só no comecinho, e mesmo assim bem longe de como ele era de fato nos games. Mas será que haveria espaço para eles no seriado? Ao menos os robôs morceguinhos apareceram, e acabamos descobrindo algo a seu respeito; São robôs câmera (!)


Os robôs chefes apareciam aleatoriamente e numa sequencia sem muita explicação, sem respeitar suas aparições cronológicas nos games.  Enquanto uns apareciam de mais, outros apareciam de menos. E muitos sequer apareceram, como Crash Man, Flash Man, Charge Man, Bubble Man e Skull Man.
Embora produzida um ano antes (é uma produção feita por japoneses e americanos, da Ruby-Spears, a mesma que, entre outras coisas, produziu animações da Hanna-Barbera. Por isso Megaman não tem uma cara tãããão anime), estreava no SBT numa época em que animações baseadas em jogos de videogame estavam em alta. Chegou a alternar espaço na programação com Street Fighter Victory, teve uma audiência boa, e até hoje não teve mais nenhuma outra animação do robô azul que chegasse perto em termos de popularidade. O anime MegaMan NT Warrior é um desrespeito ao herói convencional, e ainda esperamos uma animação protagonizada pelo Megaman X.

Pontos positivos
Estive revisitando a série animada e percebi que hoje consigo respeitar e entender de uma maneira que não conseguia no tempo em que eu era moleque. Tem sim muita coisa legal nesse desenho para a justiça dos clássicos jogos da Nintendo. Dr Light ficou perfeito, o criador e mentor que o herói realmente precisa para seguir em frente frustrando os planos do Dr Willy, o antagonista, com aquele jeitão de cientista louco, bem fiel, até mesmo fisicamente, de sua versão em videogame. A relação entre os dois gênios da robótica assemelha-se bastante com a de Charles Xavier e Eric Lehnsherr, de X-Men. Achei muito interessante a história, a mitologia dos personagens, que não conseguíamos entender em profundidade apenas com os jogos do Nes 8 bits, a questão da inteligência artificial, a comparação com clássicos da literatura mundial como Pinóquio, os planos mirabolantes e contraditoriamente também simplórios de Dr Willy para a dominação global, e a solução encontrada por Dr Light, Megaman, Roll, Rush, e de vez em quando Eddie, para frustrá-los, os combates ingênuos entre Megaman e os Robôs Master, tudo isso me fez considerar o desenho como uma boa produção que merece ser lembrada e apresentada para a geração atual. É o tipo de animação que não morre com o tempo, até por se tratar de uma história futurista. E o que eu mais amei, Rush, o cachorro robô que é como um mascote para Megaman. Sua caracterização ficou perfeita. Se nos games ele era considerado uma mera ferramenta de auxílio para o herói azul, transformando-se em jato, mola e submarino, na animação suas transformações são ilimitadas, luta ao lado de Megaman e Roll mostrando seu real valor. Além disso, é engraçado, fofo, protagoniza momentos cômicos, e a dupla que faz com Megaman faz os dois parecerem bastante Salsicha e Scooby, ficando bem difícil renegar essa influência. Rush é também responsável pelos desfechos dos episódios, propositalmente dando uma cara ainda mais infantil e ingênua à série. Até mesmo Eddie tem aqui seu valor reconhecido, aparecendo sempre que o herói precisa de uma revitalizada em suas forças, lhe conferindo provisões de energia tal como faz nos games. Assim como Rush, Eddie é um personagem muito fofinho, bem kawaii, porém, seu protagonismo é menor.
Protoman (algumas vezes referido como Breakman), o irmão desafeto de Megaman e Roll, adotado por Willy como cria sua, também está bem caracterizado e seu antagonismo torna o enredo da série ainda mais interessante. Gostei de ele aparecer em todos os episódios como sidekick de Willy, e a questão mal resolvida de como deveria se relacionar de fato com Megaman.





A série teve uma quantidade de episódios razoável e só não teve mais por que a produção sofreu por falta de orçamento. Aqui no Brasil mesmo, fez um sucesso muito grande, gerando quadrinhos nacionais produzidos pelo estúdio PPA e publicados pela Editora Magnum, roteirizados por Sérgio Peixoto (idealizador de revistas como Japan Fury, Animax). Aqui, eles não eram muito fan do Rush e acabaram escanteando o personagem. De qualquer maneira, a história dos quadrinhos era bem diferente da animação, embora alguns personagens principais permanecessem. Lembro que dentro do gibi era feito um concurso de futuros desenhistas que trabalhariam na produção, e em geral, os desenhos não eram dos melhores. Tinha até mesmo uma pegada ´´hentai``, por assim dizer.





Megaman X
Lá para o penúltimo episódio temos um gostinho de como seria uma possível continuação, X aparece,
assim como Vile e um dos 8 chefes mais interessantes, ao menos visualmente; Spark Mandrill. Viajantes do tempo, de onde se passa as aventuras de X, a versão mais turbinada de Megaman não me agradou tanto em sua versão animada quanto na versão dos games, pois se na versão do Megaman normal ele tem um semblante adolescente, X parece já bem mais maduro e garboso, e eu esperava um tipo poderoso, mas inocente e ingênuo, como o Goku, por exemplo. Contudo, era apenas um protótipo, e ainda podemos sonhar com uma saga de qualidade com um X mais carismático, aproveitando as versões mais recentes de nosso herói do mundo dos games. Sonhar não custa nada, é só lembrar de Castelvania que teve uma excelente animação de quatro episódios (por enquanto) ano passado.



terça-feira, 5 de setembro de 2017

Coleção Salve-se Quem Puder (Livro jogo)



Tá aí um livro jogo que não é nem Aventuras Fantásticas nem RPG, a coleção da Scipione, Salve-se Quem Puder, que tive a oportunidade de ler / jogar recentemente, e este volume foi A Cidade Submersa, historinha bacana que me trouxe por alguns momentos de volta à infância. Descobri essa coleção nos anos 90, mesma época em que a série Aventuras Fantásticas bombava nas livrarias, mas não teve o mesmo reconhecimento que essa série de fantasia e até os dias de hoje é pouco lembrada, o que acho muito injusto. Em comum com a série da Marques Saraiva só mesmo o fato de não se tratar de um livro tradicional, e sim um jogo interativo com uma história de pano de fundo, que nos diverte até termos a sensação de completar a missão, que no caso é terminar o livro. Em Salve-se Quem Puder não precisamos de dados, anotações, nada disso. Não há combates, você não escolhe seu caminho, você tem muita ajuda para completar a missão, é oferecido pistas, você pode seguir adiante mesmo errando ou desistindo e lendo a solução para o problema na página de respostas, não há mortes, e o público alvo são as crianças, ao contrário de Aventuras Fantásticas, onde crianças, adolescentes e adultos sentem o mesmo prazer na aventura. Aqui toda página tem uma história em quadrinho, é tudo bem desenhado e bonitinho, auto explicativo, provavelmente seu objetivo principal é fazer as crianças tomarem gosto pela leitura brincando, além de desenvolver seu raciocínio e incentivá-las a pensar mais, aprendendo a encontrar soluções. Além disso, é um ótimo passatempo para unir pais e filhos, já que um livro tão interessante desses não deve passar despercebido aos olhos dos adultos, aumentando sua interatividade com os filhos e os fazendo pensar em equipe. Enfim, é igualmente injusto comparar essa coleção com Aventuras Fantásticas, Salve-se Quem Puder tem seu próprio mérito, e afinal de contas existiram outras coleções de livros jogos que não precisam ser comparadas, como a Enrola e Desenrola, que falaremos em um outro post. Acredito que assim como eu, muita gente teve em mãos na infância ao menos um exemplar dessa coleção e sabe bem do que estou falando. Para mim é uma leitura super recomendada, não só para as crianças, como também para os adultos redescobrirem ou mesmo passarem a conhecer. Imagino ser fácil de encontrar em qualquer sebo, este exemplar de A Cidade Submersa tive a sorte de encontrar e bem baratinho, e até mesmo pelo Mercado Livre. Baixar versões em scans, pdf ou, se tiver, ler uma versão online, pode ser uma alternativa, mas nada substitui o prazer de ter um exemplar histórico desses livrinhos, que embora não carregue a alcunha de ´´livros jogos´´ eu assim os batizo. Não sei se foi relançado, e por mais que eu procure não consigo encontrar informações dos criadores, do ano de lançamento e da história da coleção, mas continuarei minha busca por outros volumes, mesmo os que já conheci na infância, e conhecer o maior número de desafios possíveis dessa coleção, entre eles desafios super fáceis, outros complexos, outros intuitivos, outros até mesmo controversos, que acaba pregando uma peça no leitor que por ventura possa ter outro ponto de vista, mas que mesmo assim o faz aprender a enxergar para os lados e entender o que lhe passa despercebido. Para entender melhor o que estou dizendo, só mesmo lendo um desses livros.