quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Bicrossers - A época em que a Globo invejou a Manchete


Talvez a Globo seja mesmo a responsável pela desconstrução do gênero tokusatsu em nossa terra por exibir a série Power Rangers, que viria a ser um sucesso de 1995 em diante. Mas antes disso a emissora chegou a exibir um tokusatsu original, numa época em que a Rede Manchete não parava de lançar mais e mais produtos do gênero fazendo o maior sucesso em sua programação. O seriado em questão é Bicrossers, que estreou em janeiro de 1991 no horário que hoje é da Malhação, no bloco Sessão Aventura. Quando eu era criança achava esse seriado muito mais infantil que os demais do gênero, assistindo hoje para matar a saudade percebo que ele na verdade estava dentro da média. Claro que tinha muita coisa que me atraía, até mesmo o fato de ser dois heróis de cores diferentes, lembrando os sentais, mas ao mesmo tempo não era e também estava longe de poder ser considerado metal hero. São eles os irmãos Ken, o mais velho e o vermelho, e o Ginjiro (o Din), o azul, que ganharam poderes no primeiro capítulo para salvar o mundo, de alienígenas de outra dimensão, e todo esse blá blá blá genérico que cansamos de esbarrar em produções de super herói e de desenhos animados. Ainda numa fase ´´pós adolescente`` os irmãos dividem o mesmo quarto e sua preocupação é estudar e mexer no computador (o seriado é de 1985 e não existia Internet, mas Din passava muito tempo jogando e fazendo pesquisas, sabe-se lá como). Eles mantêm contato telepático entre eles e sua super audição os permitem ouvir as crianças em apuros, e através de seu guarda roupa, quando conveniente para eles, são atraídos para outra dimensão onde lhe são conferidos poderes que lhes tornam os Bicrossers. O mais velho já está na faculdade, e o laboratório do centro de pesquisas salvou muito a sua pele quando precisou descobrir que tipo era o material alienígena coletado que aparecia em seu caminho. Eles moram com seus pais, mas o pai quase não aparece, e nas vezes que aparece faz o gênero fechadão, reservado, aumentando o estereótipo que os pais asiáticos ligam mais para o trabalho e menos para a família. Ainda nos primeiros episódios ele é raptado e salvo pelos filhos em sua formação Bicrosser, e no final é deixada em aberto a hipótese de que ele percebeu que seus filhos dão umas escapulidas para combater monstros e salvar o mundo (o Japão). Como aliados os jovens heróis tem também a irritante Ayame, filha do Daikichi Takeda, dono da empresa Mão na Roda, que realiza todo tipo de serviço (aqui talvez pudesse ser referida como Marido de Aluguel). Eles estão sempre rodeados pelas crianças do bairro, sua prima é uma delas. 

Mas o curioso mesmo são os vilões da organização Destler. O principal deles é Doutor Q, um homem de visual bastante cômico e ganancioso, louco por jóias. Detesta crianças e costuma usar suas criaturas para maltratá-las e fazê-las chorar, gravando seu choro para apreciação da estátua do demônio Gowla, que cospe diamantes de acordo com a intensidade do sofrimento e angústia contida no choro delas. No final, caso seu plano dê errado e o monstro for destruído, os diamantes viram pedra e frustram a felicidade do Doutor Q. Como aliada ele tem Silvia, uma mocinha até bastante sexy, mesmo com aquele cabelo armadão. Doutor Q também contava com a ajuda praticamente inútil dos Homens de Preto, androides que compunham o time de soldados feitos para apanhar que toda série tokusatsu deve ter. No seriado é explicado que o demônio Gowla vem do Planeta Serpente, de outra galáxia, mas não é deixado claro a origem dos outros vilões, provavelmente são mesmo terráqueos. Nos últimos capítulos ficamos sabendo que seu esconderijo é dentro de um navio ancorado em um cais. E entre monstros, combates, planos toscos e crianças raptadas, os dois heróis vão se tornando um respeitado substituto do seriado anterior, Machine Man, também de Shotaro Ishinomori e produzido pela Toei Company, que já havia percebido que as crianças ainda menores precisavam de uma série com nuances mais leves e mais cômicas que seguissem o estilo Henshin Hero, uma franquia diferenciada desse gênero, que não era nem metal hero nem super sentai. 




Tudo muda a partir do episódio 15: Não sei se foi uma solução criativa, ou se o seriado foi obrigado a mudar seu rumo por conta da audiência, mas já no episódio 14 muita coisa começou a mudar. Doutor Q se enfureceu com Gowla por ele não o satisfazer com jóias e diamantes, o que achei uma coisa inédita nesse estilo de produção, pois até então ele era tido como um líder messiânico do mal, algo como um sr Bazoo, por exemplo, mas pelo que vimos ele era super estimado, tanto que o Doutor Q simplesmente o descartou como uma simples estátua, que mais tarde viria a causar aos heróis momentos embaraçosos dentro de sua própria casa, mas isso é detalhe. No lugar de Gowla surge Gowler Zonguer, dizendo-se irmão de Gowla, mas sua aparência é bem mais hi-fi. Seus cabelos, uma espécie de linha de telefone antigo engruvinhada, deixava sua aparência mais alienígena. Doutor Q também ganhou um capacete mais estiloso e menos trambolhudo nessa nova fase. Com Gowler Zonguer veio Rita, nova aliada que teima em chamar Doutor Q de vovozinho, e ele é tão derretido por ela que mesmo não gostando acaba tolerando. Rita, com seu visual sci-fi retrô, é impulsiva, provoca ciúme em Silvia por ser mais jovem e mais mimada, e as duas rivalizam a preferência de Doutor Q com seus planos malignos. Os planos dos vilões, aliás, deixaram de ser fazer as criancinhas chorarem para algo mais ambicioso e perigoso, o domínio global, e o seriado passa a ficar com mais cara de gente grande dali por diante, podendo ser levado mais a sério e ser comparado com outros seriados semelhantes, só que mesmo assim, mais episódios a frente, vemos umas bizarrices que realmente não permitiam esquecermos o diferencial de tosquice que marcava presença já nos primeiros episódios. O que eu mais gostei em Gowler Zonguer foi o fato dele não ser aquele (agora sim) líder messiânico do mal carrasco, em vez de dar esporro e castigar no final dos episódios a cada monstro derrotado e plano flopado, ele apresenta uma outra solução a Doutor Q, lhe cuspindo um disquete com o projeto de criação de um monstro ainda mais ´´terrível`` que o derrotado. Também gostei da maneira que ele saiu no pau com os heróis no último episódio.  A mãe dos jovens heróis também sai do seriado, com a justificativa de que o pai deles foi transferido do trabalho para outra cidade e ela o acompanhava, enquanto os dois irmãos ficam para terminar os estudos. No lugar de sua mamãe, Ayame fica bancando a babá dos dois.

Quanto aos episódios, um que marcou bastante minha infância, como também a de muita gente como podemos comprovar em uma simples pesquisa pela Internet, foi o do ladrão de umbigos. Parece ser uma lenda do Japão ter que tampar o umbigo quando se ouve um relâmpago, e nisso, através de uma tempestade provocada pela organização Destler, aparece um monstro capeta em uma nuvem, que avança e ´´rouba`` o umbigo das crianças, as fazendo confundi-lo com o ´´Trovão``, num efeito visual tosco, macabro e nojento ao mesmo tempo. E as crianças que tiveram o umbigo roubado perdiam o equilíbrio por, tecnicamente, o umbigo estar no centro do corpo. O monstro espalhava o umbigo das crianças pelo corpo para se energizar. Merece ser considerado um episódio clássico de produções tokusatsu.


Fiquei sabendo por esses dias que Yuki Tsuchiya, intérprete do Ginjiro Mizuno, morreu em um acidente de carro em 1990, e o mais triste ainda é que ele era o mais novinho. Gostava dele no seriado, mais que o Ken, e é engraçado pensar que quando conhecemos o seriado no longínquo ano de 1991, ele já não estava mais entre nós. O seriado teve momentos marcantes, ainda mais para quem era criança e assistiu na época, adorava ver o Bicrosser Ken segurando a moto Aéro Crosser para disparar o raio fatal nos inimigos, como uma autêntica Power Bazuca, e como se não bastasse o peso da moto, Gin ainda fazia questão de ficar lá em cima, mesmo não fazendo mais sentido uma vez que o botão de disparo ficava em baixo da moto, não em seu painel. Mas era interessante ver que Gin tinha que soar a camisa e correr até a moto driblando o monstro da vez que tentava impedi-lo, dando doses de realismo, diferente dos monstros dos outros seriados que ficavam de braços cruzados em momentos como esse.
Minha memória não permite saber com exatidão até quando Bicrosser durou na Sessão Aventura, só sei que foi uma época boa essa em que seriados do gênero estavam explodindo por aí, a ponto de até a Rede Globo entrar na onda. Toda dublada no Rio de Janeiro pela Herbert Richards, mesmo a série podendo ser considerada fraca, fico contente por tê-la assistido na época, uns aninhos antes de Power Ranger aparecer por aqui e mudar todo o conceito atribuído ao gênero. Se fosse na época deles, provavelmente veríamos sim Bicrossers, mas com atores com cara de personagens da Malhação. E olha que já passava no horário dessa que seria a novela a ocupar esse pedacinho da grade.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Hermie Hopperhead - Um jogo obscuro (e Bom) para Playstation one

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Hermie Hopperhead: Scrap Panic é sim um jogo obscuro, por mais que seja fofinho e difícil de imaginar o porquê. Eu mesmo tive uma experiência pouco convencional com esse jogo, acho que foi o único que joguei antes de ter um Play one e continuei sem jogar mesmo depois de adquirir um, sendo que este foi um dos jogos que me fez ter vontade de comprar o videogame, mas não achava o bendito de jeito nenhum. Só consegui jogar esse ano e graças ao emulador e rom baixados (a rom, aliás, também não foi tão fácil achar). Mas como disse antes, apesar de bem pouco conhecido, não quer dizer que seja ruim. Difícil sim, mas ruim jamais. O que me faz achar esse jogo sofrido em alguns aspectos? Me acompanhe:

O gráfico não é nada que se diga ´´Nossa, que maravilha!``, mas é bem feito, mesmo porque é fofinho, só que não é 3D, lembra um jogo de plataforma qualquer como Mario e Sonic. Talvez por ser um dos primeiros a ser lançado para Playstation, ainda em 95,  o jogo não teve projeção mundial, sendo lançado apenas no Japão pela produtora Yuke´s, por ter características e limitações dos consoles de gerações anteriores. A Sony acreditava que o Playstation poderia lançar jogos melhores se fossem menos modestos e se esforçassem mais, e isso é uma pena, pois não veremos continuações, e o curioso é que nunca mais tentaram mexer no jogo inventando alguma coisa diferente, com a qualidade dos padrões atuais de videogame. Mas é difícil para quem nem sabe do que o jogo se trata tentar imaginar versões remodeladas, né? Esqueço que quase ninguém conhece Hermie Hopperhead. Bom, então vamos por partes: A começar, de modesto o jogo não tem quase nada. O herói é um palhacinho... não, um menininho de lindos dreads vermelhos que a princípio a gente acha que é um visual ´´fofinho, rebelde e estiloso`` do menino, até perceber, já no final, que aparentemente as pessoas do mundo que ele vive são assim, a namorada dele é igualzinha a ele. A aventura começa quando Hermie está esperando a namorada no lugar combinado, quando ovos de bichos desconhecidos surgem atraindo sua atenção. Um ovo pula para o interior de uma lata de lixo o levando junto, e o garoto vai parar em um mundo tóxico lixoso, alguma coisa assim, nossa compreensão é prejudicada pelas legendas únicas e exclusivas em japonês, mas dá para entender que os vilões são criaturas geradas pela poluição, como tênis velhos, pneus, latas vazias, isqueiros, bateria descarregada e ventiladores descartados, tudo bem deteriorado. De vez em sempre nosso herói vai encontrando pelo caminho ovos como os que encontrou no início de sua jornada, e eles o seguem pelas fases, saltitantes e bem cutis, com pernas e braços, estampados e coloridos. Hermie também vai coletando estrelas por onde passa e elas podem lhe garantir sobrevidas depois de tomar dano, dependendo da quantidade de estrelinhas acumuladas, o equivalente às argolinhas do Sonic, por exemplo. Os ovinhos também ajudam Hermie como podem, seja matando os inimigos, seja formando uma espécie de roda gigante para auxiliar nosso herói nas subidas, e até mesmo coletando estrelas. Eu fui burro o suficiente para só perceber um certo tempo depois que distribuindo as estrelas entre os ovinhos, a cada 100 recebidas, um deles ´´choca`` e vira um bicho diferente. A maioria dos bichinhos são pinguins (ovos azuis), mas também tem tartaruga (verde) e galinha (amarelo). Fiquei sabendo depois que existe uma possível ´´evolução Pokemon/ Digimon`` ao distribuir maiores quantidades de estrelas para os bichinhos já chocados, mas já era tarde, eu praticamente tinha finalizado o jogo. Só sei que todos aqueles bichinhos saltitando na tela acompanhando nosso herói deixa tudo mais alegre e colorido... e também causa uma confusão danada, misturando-se com os inimigos e deixando a gente

sem saber quem vai te atacar ou te ajudar. 
E é por tanta cor e fofura que Hermie Hopperhead: Scrap

Panic merecia ter um lugar de respeito tanto no coração das crianças como de gamers clássicos nostálgicos e saudosistas como a gente. Eu já estava esquecendo de seus pontos fracos, então vamos lá: Para começar, o jogo é grande. Aliás, grande não, gigante. As fases são longas e os mundos parecem que não vão acabar nunca. Não ouso comparar com Super Mario World por duas razões: Primeira, Hermie não tem a quantidade de atalhos e caminhos alternativos que o jogo do Mario oferece. E segunda, nem de longe Mario World pode se comparar a nível de dificuldade com Hermie Hopperhead, que só consegui zerar usando e abusando dos saves sem nenhum remorso, afinal, esse jogo implorava por essa apelação. Se escapei de passar raiva jogando esse jogo em um console? Talvez. O mais provável é que eu teria desistido de finalizá-lo. Além disso, a trilha sonora é repetitiva, são sempre as mesmas BGM´s independente da fase. As musiquinhas até que são legais, mas chega um momento que começam a irritar, parece que os compositores foram mal pagos ou estavam sem inspiração.





Conclusão: Hermie Hopperhead: Scrap Panic é cheio de qualidades e defeitos, porém, as qualidades se sobrepõem. Eu daria outra chance ao jogo, enxugando os excessos e equilibrando os desafios. O protagonista é tão interessante que chega a ser um desperdício não o aproveitarem devidamente. Até hoje me divirto lembrando da época que eu procurava esse jogo feito louco nos camelódromos da Uruguaiana, isso em 2004/ 2005, e os camelôs que sequer ouviram citação desse jogo o confundiam com Hermes e Renato, vê se pode. 



terça-feira, 28 de agosto de 2018

Desenhos pouco valorizados: Homem Aranha, a animação clássica


Nem todos os desenhos, por mais que sejam bons, são lembrados por gerações. É o caso da animação do Homem Aranha da segunda metade dos anos 90, produzida pela já extinta Marvel Films Animation. O Aranha já teve outras animações, mas sem dúvida essa é a mais injustiçada de todas, que embora tenha feito sucesso em seu país de origem, rendendo a sequencia Ação Sem Limites, essa sim um caça níquel merecidamente flopado, já não é mais lembrada em nossa terra, menos ainda revisitada, diferente do que acontece com a animação do Bat Man da Warner Bross Animation. Difícil imaginar o porquê, o roteiro é bem elaborado para uma animação infantil, os personagens são fiéis às outras mídias, e a série toda foi supervisionada pelo próprio Stan Lee. O que consola é saber que o Aranha é um personagem ativo, bastante explorado em outras produções, e para a geração atual, que de certo não ouviu falar muito dessa animação, ao assisti-la vai ter a sensação de descobrir um produto genuinamente novo do herói. Vamos aos pontos que fazem a série se tornar especial para uns e esquecível para tantos outros:




Heróis: Muitos personagens do universo Marvel aparecem na animação. Os X-men participam de dois episódios, e o traço dos mutantes está bem, digamos, diferente do de sua própria animação, e isso causou um certo estranhamento. O que consegue causar ainda mais é os nomes dos personagens inventados na dublagem, e isso foi digno de revolta. Wolverine virou Lobão e Fera virou Animal, com certeza a direção de dublagem teve preguiça de se informar sobre os heróis e não leram um gibi sequer. Essa sequencia de episódios faz parte de um arco em que o Aranha sofre uma espécie de alteração em seu gene e sente estar se transformando em um mutante. Ainda com relação aos nomes absurdos inventados para os heróis, Demolidor virou Atrevido (de onde será que vieram ideia para esses nomes toscos?), mas essa alcunha foi compensada pela mais interessante participação que o Homem sem Medo já teve em uma série animada, e Justiceiro virou Vingador, e mais tarde Carrasco, mas também perdoamos só pelo fato de ele ter aparecido em uma participação respeitosa dentro de um contexto mais inocente da própria série, com direito a sequencias de tiroteio com armas de fogo em vez das habituais armas laser, recurso comumente usado em produções animadas. Também marcaram presença Blade e Whistler em episódios lindamente caprichados, onde a trama de vampiros, inserida pelo personagem Morbius, foi muito bem aproveitada. Até mesmo a origem de Blade e o drama de sua mãe foram lembrados. Felícia Hardy como a gata Negra foi outro acerto da série, que precisaria de uma heroína e um interesse amoroso para o Homem Aranha, e nisso ela não deixou a desejar. Sabendo dosar momentos em que a gata Negra surge para salvar alguém e dar uns sopapos nos bandidos com momentos de romance e inevitáveis crises com o aracnídeo, a história nos faz torcer para que a aliança dê certo e um passe a ter, por assim dizer, mais intimidade com o outro... nos fazendo esquecer se tratar de uma produção infantil. Nick Fury também aparece e toda sua trama envolvendo a S.H.I.E.L.D, e mais tarde personagens como Homem de Ferro, Capitão América, Doutor Estranho e até mesmo Máquina de Combate, todos com suas origens e características bem detalhadas, porém, não gostei da mudança de personalidade de um ou outro personagem. Nos capítulos finais é reproduzido o que seria uma adaptação do arco de histórias Guerras Secretas, tão popular nos quadrinhos, juntando alguns personagens que já apareceram no seriado, acrescentando a participação até então inédita do Quarteto Fantástico, em um conflito em outro planeta envolvendo o ser intergaláctico Beyonder e Dr Destino. Apenas a participação de Madame Teia não me agradou em nenhum momento na série, a personagem, a bem da verdade, não é popular, causa estranheza até mesmo entre fans do Homem Aranha. Além de arrogante, nos momentos em que aparece dispara uma groselha atrás da outra, eu a tiraria facilmente do desenho e substituiria suas participações por soluções mais simples e aceitáveis. De resto, embora muitos personagens importantes na vida de Peter Parker apareçam bastante, senti falta de Gwen Stacy. Outros personagens chatos também mereciam sumir, como Anna Watson.



Vilões: É curioso ver o rei do Crime como o principal vilão do amigão da vizinhança, sendo que na verdade ele é o principal vilão do Demolidor, mas a gente acostuma. Chamava minha atenção a maneira como inseriam esse personagem ´´tão realista e fácil de existir`` (na vida real mesmo, temos vários Reis do Crime) em um ambiente tão fictício dominado por vilões e equipamentos fantasiosos. Seus aliados e capangas fixos realmente são interessantes, como seu filho Richard Fisk, Smythe e Herbert Landon. Aqui Wilson Fisk é uma espécie de cientista sofisticado do Queens, diferente do criminoso gran fino da Cozinha do Inferno que conhecíamos melhor. Mas é claro que na série também existe a Oscorp e outros super vilões, fazendo ou não aliança com Fisk. Dos vilões mais conhecidos senti falta apenas do Homem Areia e Chacal. Até mesmo o Sexteto Sinistro aparece, porém com nome e formação diferente. É apresentado como Os Seis Traiçoeiros, formada por Doutor Octopus, Rhino, Mystério, Escorpião, Shocker e Camaleão. Apenas Dr Octopus e Mystério pertencem à conhecida formação. Tudo levava a crer que Electro, Kraven, o Caçador, Abutre e Homem Areia ficariam de fora do desenho, mas, com exceção desse último, eles aparecem, mas em contextos e momentos diferentes, nada que não seja pequenas alterações que qualquer adaptação costuma fazer. Contudo, uns inimigos tem destaque demais e outros de menos, e o pior é que nem sempre é merecido. Também me incomodou a origem de alguns e de certas ordens de aparição, como por exemplo, Duende Macabro aparecendo antes do Duende Verde, e o alter ego de Norman Osborn sendo tratado por um sub produto de Kingsley, quando todos sabemos que foi o contrário. Mesmo assim foi bom vermos Duende Verde em ação e o desdobramento de seu drama, envolvendo o legado imposto a seu filho Harry, com direito a todas aquelas confusões mentais que acometem o jovem, como já visto em outras mídias. Hydroman, vilão pouco conhecido, teve um destaque um pouco aquém do merecido, mas foi o responsável por um arco importante, a trama do clone da Mary Jane, outra grande saga dos quadrinhos, que mesmo sendo considerada confusa para alguns leitores, na animação foi bem adaptada e de fácil compreensão, eu particularmente vibrei com os poderes que Mary Jane ganhou. Mas os que mais me surpreenderam positivamente foram Mystério, Mancha e Morbius, que em minha modesta opinião tiveram participações cruciais para que a animação merecesse ser lembrada e amada. Vale uma menção honrosa também para o Caveira Vermelha, mesmo não sendo pertencente do universo do Aranha, pois além de ter sido bem retratado, foi capaz de incomodar o Capitão América pela simples sugestão de sua presença.



Conclusão: Quem assistiu a toda série animada sabe que é muito boa. Talvez um ponto negativo seja os primeiros episódios sem a participação de um vilão substancialmente importante, mas isso se você for chato... ou não, pois as historinhas envolvendo os Esmaga Aranha é realmente um saco. Os traços são simpáticos, lembram vagamente as produções da Hanna Barbera, e o estúdio responsável pelas animações é o japonês Tokyo Movie Shinsha. A trilha de abertura é um rock dos bons, composta pelo guitarrista do Aerosmith, Joe Perry, feita sob encomenda. Eu sou um dos que a considera uma das melhores trilhas de animação infantil americana. Não vou dizer que gostei de tudo que se passou no desenho, mas não é exagero dizer que é tudo muito bem feito, até a origem do herói foi contada, coisa que normalmente se omite em desenho animado, e a imagem do tio Ben não foi deixada de lado. Já foi espalhado pela Internet a fora que a produção enfrentou problemas com a censura, o herói simplesmente foi ´´proibido`` de desferir soco nos inimigos, mas é tanta aventura e cenas de ação que a gente nem percebe ou sente falta. Prova que as animações da Marvel têm qualidade e não precisam apenas desses artifícios para fazer uma boa história de super heróis. No entanto, a trama que se seguiu na série não foi amarrada e a animação termina com um final em aberto, para não dizer que não teve final, e talvez esse seja seu principal ponto fraco. Quem sabe o último episódio possa ser perdoado pela simples participação de Stan Lee em sua versão animada. 


terça-feira, 7 de agosto de 2018

O que achar das legendas explicativas dos filmes para deficientes auditivos?




Mais de uma vez vi no cinema um filme que, apesar de dublado, tinha legendas. Ok, são as conhecidas legendas explicativas para deficientes auditivos. Algumas vezes em casa também assistimos filmes assim no DVD, comparando o áudio com as legendas, que apesar de traduções bem parecidas, têm uma ou outra alteração de frase, trocas de palavras por sinônimos, e dependendo, até o conceito da frase varia, e isso torna a experiência de assistir filme desse jeito bem divertida. Mas no cinema isso fica mais bizarro que divertido, lembrando que o intuito é que os deficientes auditivos possam entender o filme, e essas legendas, desnecessariamente acabam se tornando explicativas demais. Entenda que o problema não são as legendas, e sim a maneira irritante em que ela narra coisas que estão acontecendo na cena que não precisam ser explicadas. Vamos pensar em uma história em quadrinhos, uma história onde balões, letras e onomatopeias fazem a função de palavras e sons. Nos filmes, linguagem visual mais próxima da realidade, as onomatopeias são dispensadas, porém, em uma cena de explosão, por exemplo, não precisaria de uma legenda cínica explicando ´´Som de explosão``. Nos próprios quadrinhos tem vezes em que as onomatopeias não precisam estar ali presentes, como em uma festa. O ´´Barulho de festa``, ´´sons de músicas``, ´´risadinha e cochichos animados`` são facilmente substituídos pelos próprios desenhos da cena, ou até mesmo umas claves de ré e de sol aparecendo flutuando pelo quadro. O mais irritante ainda é quando em uma cena de casal aquela maldita legenda teima em aparecer ´´Sons de sussurro``, ´´sons de gemido``, ´´sons de beijinhos``. Isso para mim destrói o clima todo da cena. Por que simplesmente os editores de legenda não se convencem de que a cena fala por si só? Duvido que não tenham entendido a cena como um todo sem ninguém para explicar. É hora de aprender a respeitar a expressão corporal dos atores que estudaram tanto para aprender a pôr em ação. 

Conclusão
Nos filmes, onde se tem uma estrutura narrativa rica e bem próxima da realidade, é mais fácil entender o que se passa sem a necessidade de didatismo. A origem dos sons já é tão bem retratada visualmente que se torna ofensivo até mesmo para os deficientes auditivos alguém explicando o que está acontecendo. Seria bom não tratar essas legendas explicativas como uma narração explicativa para deficientes visuais, essa sim precisa de um trabalho mais denso e completo. Para mim, como acredito que para muitas pessoas também, os deficientes auditivos já se bastariam só com a legenda normal.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Crianças ligam para roteiro de filme?


O Gato, 2003. Estrelada por Mike Myers, a produção tem roteiro simples, genérico, porém funcional, e o filme se sustenta pelas travessuras do espevitado gato mágico que diverte as crianças com suas cores, movimentos e alegorias.
Uma questão interessante a ser discutida que vem me chamando atenção há um tempinho, é se as crianças realmente ligam para as historinhas de seus programas favoritos, seja desenho animado, filme ou qualquer outro programa infantil. Mas antes de fazermos uma análise, devemos lembrar que todos nós já fomos crianças um dia, e que elas são muito visuais, se interessam por cores, som e forma, e que, sendo sinceros, não é difícil conquistá-las com personagens cativantes, engraçados, de aparência amistosa e fala engraçada, ou de aparência forte, viril e moderna e voz canastrona, no caso dos heróis. Muito do que gostamos hoje nos foi apresentados ainda na época de nossa infância, como super heróis, animação, quadrinhos e determinados tipos de filmes, e será que a gente consegue lembrar da sensação que isso causava na gente e como reagíamos a esses estímulos narrativos e sensoriais? É o que veremos a seguir. 

Vamos lá, devemos concordar que criança gosta de repetição, não é mesmo? Elas não ligam em assistir uma atração contínua, de episódios intercalados, uma ação ligando à outra. Se um simples único episódio a proporcionou uma experiência agradável, ela vai querer assistir a esse mesmo único episódio mais vezes, em outros dias, em outros momentos de sua vida, mesmo já sabendo o que vai acontecer. Não podemos esquecer que a criança não tem a mesma autonomia de um adulto, e fica na dependência deste para assistir aquilo que lhe agrada, e essa experiência passa a ser valiosa à essa criança, mesmo que não percebamos. Mas também não se surpreenda se o que a despertou atenção não foi o episódio como um todo, e sim determinadas cenas. A criança então associa o episódio do desenho em questão ao adulto que a incentivou a conhecê-lo, e a influência deste adulto sobre essa criança passa a ser respeitada por ela. É nesse momento então que o adulto sabe que a criança vai acatar o conteúdo que ela possa escolher para lhe apresentar, portanto as escolhas devem ser as melhores para cada faixa etária, animação educativa, programas divertidos para sua idade, mas tudo apresentado em seu devido tempo e um produto de cada vez, pois a criança não tem a capacidade assimilativa de um adulto, e possa ser que deixe de prestar atenção rapidamente, se dispersando, e a tentativa de fazê-la conhecer novos programas passa a se tornar em vão. Lembrando também que um espetáculo infantil, de qual natureza for, não deve jamais ultrapassar uma hora e meia de exibição, isso causa fadiga à criança e acaba lhe causando uma experiência torturante (Acredite, uma hora é um tempo demasiado longo para elas). Caso um tipo de programa a deixe de interessá-la, mesmo que ela já tenha se encantado por bastante tempo por um episódio isolado, é hora de apresentar algo diferente. Muitas vezes elas se interessam não pelo programa em si, mas por determinada cena, determinada ação e sequencia, por mais simples que pudesse ter sido, e nesse caso não é bom forçá-las a assistir outros episódios. Como sabemos, as atrações infantis tendem a se copiar e possivelmente ela vai reconhecer ações semelhantes em outros programas do gênero. Um tempinho depois ela pode desejar revisitar tal programa deixado para trás, e é assim que a criança vai moldando seus gostos, seu caráter, o interesse por determinada situação retratada, afinando suas preferências narrativas. 

Pingu, produção de 1986, animada em stop motion com personagens feitos de massinha de modelar. Mesmo não tendo fala inteligível, os episódios prendem as crianças por ter uma historinha de início, meio e fim, geralmente finalizada com uma lição de moral. 

Em meu tempo de criança pode até ser que a programação da TV aberta tivesse um leque muito grande de atração infantil, mas nada de TV a cabo nem Internet, portanto, não existia essa infindável variedade de programas infantis, para todos os gostos e idades. É certo que podemos encontrar por aí um ou outro desenho para pessoas ´´maiorzinhas``, mas temos também uma vasta gama de desenhos educativos, e as produtoras tendem a experimentar mais, cancelando uma série e emendando outra logo depois, dada a facilidade atual de se produzir tais conteúdos. Acontece que nenhuma produção cativa uma criança por tanto tempo, o que acaba valendo são produtoras querendo fisgar ´´classes de crianças distintas`` com suas ´´atrações distintas``, essas que produzem conteúdo para cada tipo de criança, as maiorzinhas, as menores, meninos, meninas, as menos favorecidas financeiramente, as de escola particular, as de pais separados, as que assistem TV com os pais, etc, acredite, é bem assim que as coisas funcionam. Tendo em vista que as crianças crescem e a geração de hoje caminha para um estilo de vida onde se descarta as coisas que não lhe servem mais, diferente da nossa que até hoje se interessa e pensa com carinho em produções como As Tartarugas Ninja, Transformers, He-Man, G.I Joe, etc, e ainda sofremos quando resolvem, ainda hoje, mexerem em suas fórmulas, as produtoras atuais optam por não reciclar seus conteúdos, preferindo, em vez disso, criar uma atração genérica nova. Nada de temporadas e mais temporadas de uma única animação, a preferência é pela quantidade e não qualidade, por mais que isso pareça indelicado de se dizer, por isso tantas atrações parecidas, de traços semelhantes, histórias simples e personagens esquecíveis. Por isso, o investimento é mais nas cenas e em histórias isoladas no que no roteiro como um todo. Pelo que dizem, a criança de hoje é mais dispersa, mais hiperativa, não assiste desenho na televisão como antigamente, e sim em smatphones, tablets e têm outros meios de entretenimentos em mãos, como jogos de videogames portáteis e de mesa. Contudo, prender a atenção da criança é algo que exige esforço, não podendo se dar ao luxo de mantê-la com os olhos fixos na TV com soluções arriscadas envolvendo histórias complexas.

Ainda em se tratando de nosso tempo de infância, os desenhos eram sim mais bem estruturados, o roteiro falava mais alto. A diversão era para toda família, as produtoras de animação buscavam fazer os pais acreditarem que aquele conteúdo era sim bom para as crianças, e o apelo se direcionava sem medo aos adultos, assim como a publicidade de sua coleção de brinquedos, que passava às vezes até mesmo em horário nobre. Era comum animação baseada em filmes não necessariamente infantis, como Rambo, Karatê Kid e Robocop, para citar alguns, algo não muito fácil de se pensar hoje em dia. Ainda hoje somos pegos pelo tão presente fator nostalgia e nos esbarramos com produções recicladas das animações de nosso tempo, a maneira que as grandes produtoras, em parceria com canais de TV a cabo, encontraram para nos fazer consumir tais produtos, inclusive as apresentando à uma nova geração. Bem assim são com os filmes da Disney, da Pixar, e adaptações live action. Note que atualmente as produções são sempre as mesmas, pois, se não fosse assim, as chances dessas produtoras se meterem em cilada seriam muito grandes.

Conclusão
Que as crianças hoje em dia são mais dispersas, ninguém discute. Mas não quero arriscar dizendo que isso seja algo necessariamente ruim. Como já sabemos, as coisas mudam, e talvez essa seja apenas uma evolução do tempo. O modo de ver televisão, inclusive, já não é o mesmo há algum tempo, e por que não seria assim também com as produções infantis? Mas, em defesa delas, digo que as crianças são sempre iguais, não importando de qual época. Eu quando criança assistindo a um filme de super herói, contava os momentos de ele aparecer na tela para ver suas sequências de ação, suas cenas de luta, o modo como combatia os inimigos, seus poderes, toda a mise-en-scène envolvida, pouco me importando com o roteiro, claro que se ele não se esforçasse para me prender a atenção. A bem da justiça, até hoje sou assim. Mas naquela época, entender o porquê de tudo aquilo funcionar daquele jeito era uma tarefa do adulto que estivesse assistindo comigo. Por isso que hoje vemos brinquedos de determinados personagens que, segundo alguns chatos, não são beeemm assim infantis. Mas o que de fato a interessa é ter a certeza de que o que aquele personagem faz é o certo e ter uma roupa bonita, além de fazer bem feito suas cenas de ação. Mais tarde, ele vai revisitar esse personagem com olhos mais técnicos, às vezes até mais chatos, e aí ele vai perceber que dessa vez está ´´estudando`` suas produções. Era assim comigo, era assim com você, e vai ser assim com todo mundo.



terça-feira, 29 de maio de 2018

X- Men Animação Clássica




Insisto em acreditar que os desenhos dos anos 80 e 90 são melhores que os de hoje. Não importa os acertos, as tentativas, as opiniões divididas entre uma adaptação clássica e uma criação original, o que defendo é que, independente de ser o público alvo, as animações antigas superam as recentes. Lembro da metade dos anos 90, onde a preferência dos garotos da época era disputada entre Os Cavaleiros do Zodíaco, X-men, e um pouquinho depois, Power Rangers (Mighty Morphin). Nesse período passava entre eles, um tanto despercebido, o desenho Os Poderosos, na TV Colosso, que eu gostava bastante e em minha humilde opinião não ficava devendo em nada para esses já citados, mas eu preferia ficar calado para não sofrer ´´hate``. Mas acontece que, se antes eu conhecia X-Men dos quadrinhos, foi com a animação que começou minha admiração pelos mutantes até os dias de hoje. Se não me engano começou a passar no Brasil no comecinho de 1994, e realmente para época era um dos melhores desenhos a passar na televisão, era o último a ser exibido na programação infantil da Globo, na hora do almoço, justamente o momento em que se registrava maiores indicies de audiência, a hora em que as crianças se preparavam para ir à escola (no caso, as que estudavam de tarde, público para o qual a programação era direcionada). Os personagens agora se encontravam em novos uniformes, todos reformulados, diferente da maneira como apareciam nos quadrinhos, com destaque especial a Ciclope, Wolverine, Vampira, Gambit, Fera, Jean Grey, Tempestade, e um protagonismo optativo dado à Jubileu, uma pré adolescente, provavelmente para trazer mais identificação ao público infanto juvenil que viria a acompanhar os episódios, inserindo-os na descoberta desse novo universo de pessoas diferentes que a aguardavam, já que muito provavelmente nem todo leitor dos quadrinhos iria ser conquistado por essa versão animada dos X-Men, que precisaria ter uma linguagem mais infantil e mais universal. A animação seria apresentada à uma nova audiência, aquela que nem tinha o hábito da leitura, ainda mais se lembrarmos que os tempos eram diferentes e as crianças não conheciam nada de redes sociais, sites, blogs e comunicação à distância. Falando nisso, foi assistindo esse desenho que aprendi a pronunciar corretamente o nome Ciclope, que, acredito eu, foi a melhor versão desse personagem. Scott Summers foi o protagonista que as outras mídias precisariam ter, até hoje não o vi em uma adaptação decente nos cinemas, por mais que tivessem tentado nessa última vez. Forte, viril, bom líder, galante e em nada devendo a Logan, que também foi aqui bem retratado, talvez começando desde já a conquistar seu lugar na preferência de muita gente quando se pergunta qual seu herói/ X-Men favorito. Insisto a pensar que só existe os filmes de heróis por que as animações deram seu ponto de partida, não os quadrinhos, ao menos os primeiros a iniciar as sequencias que viriam depois. As versões televisivas foram as que apresentaram os heróis ao mundo, pois todos assistem televisão, crianças assistem televisão, e não necessariamente todo mundo tem o hábito de ler, mesmo hoje em dia, o que não deixa de ser uma pena. É possível conhecer toda a história, os personagens e a mitologia que cercam os heróis sem ter tocado em um gibi sequer, e ainda se tornar fan de um determinado personagem, debater, discutir, e reclamar caso seja escalado outro ator para interpretá-lo, escanteando o qual conhecemos sob a pele do personagem que aprendemos a amar. Mesmo assim a venda dos gibis dos mutantes aumentou bastante com o sucesso da animação, trazendo inclusive às bancas X-Men Adventure, série adaptada dos episódios da animação, e um álbum de figurinha da série de TV, que não vi fazer muito sucesso onde eu morava, tendo sido ofuscado pela coleção das figurinhas dos Cavaleiros do Zodíaco. Como podemos perceber, os impressos faziam sucesso de uma maneira que as crianças de hoje não conseguiriam imaginar. Com relação ao sucesso do desenho também se tornou fácil encontrar o jogo de Super Nintendo X-Men - Mutant Apocalypse, onde se podia jogar com Ciclope, Fera, Wolverine, Gambit e Psylocke, curiosamente a única representante do gênero feminino, que sequer fazia parte da equipe original da animação. Esse foi o primeiro dos muitos jogos, de vários consoles, que veio nesse embalo.

A animação



A animação tinha uma pegada bem anos 80, e digo de uma maneira positiva, pelos bons traços, roteiro bem trabalhado e personagens bem construídos, mas foi produzida entre 1992 a 1997, num total de 5 temporadas. A Rede Globo nem se atrasou tanto em trazer a animação para nossa terra, e o sucesso foi praticamente instantâneo. Pena que a belíssima abertura foi cortada para poupar tempo de exibição, restando apenas a ´´colisão`` entre heróis e vilões que, afinal de contas, acabou se tornando uma abertura antológica. A mansão do professor Xavier se mantém bem equipada e sofisticada, porém, sem a cara de uma ´´escola de alunos super dotados`` que precisaria ser seu disfarce. Para não duvidar do intelecto das crianças e de qualquer outra pessoa que assistisse a animação, não existia mais ninguém na mansão além dos tradicionais X-Men. Esqueça isso de aulas, alunos e professores, a Mansão X apenas abrigava mutantes heróis que se reuniam para discutir seus planos, treinarem seus poderes e habilidades, e ter um teto para viver, tudo sob a tutela de Charles Xavier. Em um determinado episódio a mansão é toda destruída e refeita por eles mesmos, voltando a funcionar em tempo recorde, com todos equipamentos que nela contêm. Outros personagens importantes esbarravam com nossos heróis em alguns episódios, como Colossus, Noturno (que por alguma razão teve seu nome alterado para Morcego), a Tropa Alfa, Anjo, Cable, Blob, Homem de Gelo, Psylocke, Moira, Pyro, Mercúrio, Morlocks, Feiticeira Escarlate, Bishop, Banshee, Ka-Zar, Mística, Sauron, Cristal, Solaris, Capitão América, Samurai de Prata, Senador Kelly, Mojo e Longshot, entre muitos outros. Alguns achei que foram bem utilizados, outros não, mas devemos saber que são muitos personagens e é difícil encontrar lugar para todos eles. Além dessas participações, um ou outro personagem do universo Marvel aparece em forma de lembrança, flash, frame ou plano detalhe, sendo de certa forma homenageados, como aconteceu com o Motoqueiro Fantasma, Justiceiro, Deadpool e Homem aranha. 




De todos os personagens que não são os clássicos protagonistas, um que chamou bastante atenção, além da Jubileu, foi o Morfo. Com o mesmo poder da Mística, era basicamente um estranho para quem conhecia os X-Men apenas dos quadrinhos, e morreu logo no segundo episódio. Ou seja, era um personagem criado só para morrer mesmo. Segundo Wolverine, era um grande amigo seu, sempre sarcástico e divertido como o mutante canadense. Apareceu alguns episódios depois, vivinho da silva e bem revoltadinho por sinal, a princípio querendo se vingar de seus ex-colegas X-Men por o terem deixado para trás e resultando em sua morte, mas perto do fim da série ocorre uma trégua e volta a se entender com eles, não retornando à equipe por achar que ali não é mais seu lugar (e também porque não cabia mais no roteiro), apesar da insistência do Professor Xavier e Wolverine. Nos quadrinhos tem um personagem bem parecido, porém, o da versão televisiva foi apenas inspirado neste, já que não há grandes semelhanças além do poder de metamorfose. 

Contudo, há um grande estranhamento entre essa versão televisiva com as demais, detalhes, histórias e origens que entram em choque. Como por exemplo, ser difícil considerar a relação maternal entre Mística e Vampira, assim como a mesma relação que a mutante azul tem com Noturno (ou morcego, em se tratando dessa animação), dessa vez uma relação sanguínea. Fora isso, arcos de histórias foram aqui muito bem representadas, como o da Fênix / Fênix Negra, a participação da equipe Shi´ar, a história em torno da cura mutante, as viagens temporais, e as lembranças, em flashback, que a equipe mutante nem sempre foi como passamos a conhecer desde o primeiro episódio, mostrando que antes era usado um uniforme padrão, os integrantes nem sempre eram os mesmos, e Fera já teve forma humana. A linha do tempo doida e bifurcada característica de uma produção dos X-Men marcava sua presença já nessa época, com os infindáveis casamentos entre Scott e Jean e falhas de continuidade e de coerência. Às vezes parecia que o roteirista esquecia do que havia acontecido antes. Tudo bem apenas se você achar que as crianças tem memória curta e não lembram do que comeram no café da manhã do dia anterior. 

Vilões

Para ser sincero nunca achei os vilões dos X-Men tão terríveis assim. Magneto, por exemplo, me parece uma flor de pessoa. Acessível à conversas, sua motivação é coerente e seus planos nem são tão terríveis assim. Apareceu em alguns poucos episódios como vilão, em muitos como aliado, e nem impressionou tanto. O mesmo se diz sobre Juggernaut (eu prefiro chamar de Fanático, mas muita gente se refere a ele pelo nome original). Foi interessante lembrar do meio irmão de Charles Xavier e explicar sua história, o fato de ele não ser mutante e mesmo assim parecer uma grande ameaça, seu caráter, em vários episódios não importando a distância entre eles. Mesmo assim, ele não é de longe tão ameaçador como deveria. Sua primeira aparição coincide com a primeira aparição de Colossus e o conflito que se segue (a bem da justiça, o desenho é cheio de ação e luta, embora para os padrões aceitáveis da época) deixa bem claro que na verdade ele é um bobalhão de miolo mole, dependente de sua couraça. Um detalhe curioso é que em um episódio bem à frente, um Zé ninguém encontra a jóia de Cyttorak que confere os poderes de Juggernaut e se torna um pit boy irresponsável, indo parar, em conflitos com o Juggernaut verdadeiro, no set de filmagem dos Power Rangers, referência que teve origem talvez por o  seriado, que também é da Saban assim como essa animação dos X-Men, estar fazendo sucesso na mesma época. 



Dentes-de-Sabre é um personagem que não pode faltar, mas teve sua origem mal trabalhada e mal desenvolvida nessa animação. Ficou sem explicação do porquê Wolverine odiá-lo tanto, não podia nem ver o cara que já ficava de TPM. Nos episódios futuros, suas sequencias com o Wolverine, seu envolvimento nas descobertas da Arma X e a união com outros personagens, foram dando um tempero adicional ao personagem. Mas sem dúvida o maior deles foi mesmo Apocalipse, merece levar a menção honrosa de melhor vilão da série. Nem mesmo Sr Sinistro se mostrou tão terrível (lembrando que os arcos de aventura dele são chatos). Já Apocalipse em todas suas formas, seus planos, seus vilões derivados, Arcanjo, os quatro cavaleiros do apocalipse, Pestilência, Guerra, Fome e Morte, enfim, já nem deixaria mais espaço para outro personagem bicão se estivessem em todos episódios.  Tão estiloso quanto ele, mas não mais amedrontador, é o Molde-Mestre, que fabricava Sentinelas numa escala absurdamente grandiosa. 




Não sou um cara preso ao passado, acredito e torço para que futuras gerações conheçam animações de qualidade de super herói como foram as do meu tempo. Ao menos que conheçam as originais, por que não, desenho bom não fica datado. Os personagens estão sempre se reciclando, nas animações, no cinema, em adaptações live-action, só vamos esperar que não descaracterizem nossos heróis em produções preguiçosas e infantis abaixo da média. Pode ser inclusive que X-Men precise de uma nova adaptação, mas nada parecido com X-Men Evolutions. Só que na direção que caminha as produções atuais quem sabe ser comparado com X-Men Evolutions não seja mais tão ruim assim.